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Martin Eden

“Desconhecia que possuía ele próprio um vigor cerebral invulgar, também não sabia que as pessoas que lhe serviriam para sondagem das profundezas dos pensamentos não se encontravam nos salões do mundo dos Morses; tampouco sonhava que tais pessoas eram como águias solitárias que pairam, isoladas, no azul dos céus muito acima da Terra e do formigar do fardo gregário da vida.”

Pegue a história da sua vida, acrescente muito açúcar, versos calorosos e profundos e por fim o mais azedo limão. Essa parece ter sido a receita de Jack London para seu relato semi-autobiográfico “Martin Eden”. É sério, a leitura dessa bela obra é única.

Este livro me veio parar nas mãos quando vasculhava, numa biblioteca, prateleiras à procura de On the Road, não encontrando o que queria me detive em alguns livros de Jack London, que é citado o tempo todo no filme “Into the Wild”, por isso sempre mantive arquivado um interesse por esse cara. Enquanto segurava “Caninos Brancos” na mão, vi-o – ao lado, alheio aos outros livros: “Martin Eden”. Lembrei imediatamente da música Shiver me Timbers de Tom Waits que cita o tal Martin.

Martin é um jovem marinheiro, chegado num e quase sempre envolvido numa boa briga, ignorante e rude, embora um ser muito do espirituoso – frequentador das marginalidades do mundo que, por força do amor, empreende, a duras penas, uma ação para elevar-se ao nível de cultura e requinte de sua musa e da classe social dela. Nesse empenho, Martin desenvolve sua paixão pela escrita e resolve tornar-se escritor.

Não vou fazer nenhum resumo didático aqui. Sei que análises racionais por vezes distanciam o alcance artístico das obras, além de comprometer o impacto singular que uma obra de arte produz em cada um, afinal, a interpretação de outros pode contaminar a nossa própria experiência.

Entretanto, Nietzsche dizia que o homem é incapacitado de alcançar a verdade última das coisas. No final das contas, estamos condicionados de uma forma ou de outra a interpretar tudo fazendo uso da visão, ou das visões alheias. Martin Eden parece ter se dado conta disso durante sua odisseia. Seu modo de pensar e agir era constantemente lapidado pela influência de grandes mentores. Mas esse não é o ponto que queria tratar sobre o livro.

O que mais me chama atenção em “Martin Eden” é o fato de que, à medida que se desenvolve intelectualmente, Martin passa a experimentar uma sensação de alienação em relação às outras pessoas. Um abismo se abre entre ele e aqueles com quem convive. O conhecimento permitiu a ele contemplar a grandeza do Universo, as maravilhas da existência, as infinitas possibilidades da vida e as leis imutáveis que parecem reger nossa existência. O conhecimento permitiu a Martin um vislumbre da verdade. Vislumbre esse, que as outras pessoas não compartilhavam. Jamais seriam capazes de compartilhar.

Seu crescimento intelectual ia na contra mão da satisfação que antes encontrava na companhia dos outros.

Ao fim, chegou a um ponto onde havia elevado-se acima daqueles que lhe haviam sido o motivo dessa empreitada de erudição. Aqueles que a princípio foram sua inspiração para elevar-se de sua situação de ignorância, acabaram se revelando tão ou mais vazios quanto ele mesmo era quando não possuía cultura alguma.

Nesse momento, sua desilusão foi profunda. E viu-se por fim, sozinho.