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Ben e a virtude

A autobiografia de Benjamin Franklin é um marco nos textos democráticos da História.

Não vou fazer uma resenha do livro ainda, afinal ainda não terminei de ler tudo, mas uma coisa que vem me chamando a atenção é o apego quase obsessivo que Ben Franklin tem pela virtude.

Sua inclinação em cultivar princípios fortes como Temperança, Sinceridade e outras (13 ao total) chega ao extremo de manter um diário onde ele registra suas faltas cometidas durante o dia em cada uma das virtudes.

É óbvio que eu entendo o poder e a recompensa de se cultivar virtudes para alcançar uma vida plena e feliz. Sei também da importância vital da auto-disciplina para alcançar qualquer coisa que vale a pena.

No entanto, ao ler as linhas do Sr. Franklin me vem um sentimento de desapontamento, quase decepção. Perceber que alguém de tamanha importância para a história da humanidade parece tão cafona e sem graça, suas aventuras não tem grandes emoções, suas empreitadas não tem nada de radical. Enfim, Benjamin Franklin surge pra mim como um tiozinho que apesar de suas infinitas realizações, é muito do sem graça.

Pensei nisso durante alguns dias e a pouco uma ideia veio iluminar minha cachola.

Percebi que esse sentimento de desapontamento não é por ser ele, Benjamin Franklin, um chato. Essa sensação vem de um condicionamento que faz com que eu ache enfadonho e sem graça tudo e todos que não vivem de forma extrema e até irresponsável.

Não é de se espantar. Em nossos dias existe um apelo por toda parte que parece tentar dissipar de uma vez por todas o alcance e o prazer de uma vida de virtudes.

Os valores de outrora, responsáveis por grandes realizações, estão agora totalmente ofuscados pela banalização de tudo. A música, a cultura, a televisão, tudo parece estar em uma curva descendente rumo ao supérfluo máximo. Não existe mais espaço pra heróis.

Nos tornamos por vezes tão mesquinhos e arrogantes que chegamos a ridicularizar indivíduos mais virtuosos e iluminados que nós. – Desculpe Ben.

Deixamos de perceber o valor do cara que todos os dias consegue vencer a si mesmo, domar seus impulsos e adiar seu divertimento. Trabalhando com afinco e diligencia para colher frutos futuros.  — Essa é uma questão que devo voltar em outro post.

Mas não quero ser um desses velhotes que reclamam do momento atual, dizendo que as coisas do passado eram melhores. Não eram. Sempre houve essa escravidão mental que impede os homens e mulheres de se tornarem conscientes de seus próprios condicionamentos e trabalharem em si mesmos para serem melhores.

E talvez,  essa seja a característica mais nobre e louvável do Sr. Franklin, que faz dele, no fim das contas, um cara durão e aventureiro, buscar uma melhoria de si mesmo todos os dias, lutando contra seus vícios e imperfeições, pois afinal só descobrimos quão ruim somos quando tentamos ser melhores.